Fertilizantes mineral e orgânico: efeito complementar

February 14, 2020

Valter Casarin*, Amanda Borghetti **, Pyetra Ardana **

 

 

Para produzir alimento, as plantas precisam de nutrientes essenciais para garantir a qualidade e quantidade da colheita. A adubação é o meio de levar esses nutrientes para as plantas. A reposição dos nutrientes ao solo só é feita através do uso de fertilizantes, ou seja, adições de N, P, K, Ca, Mg, S e micronutrientes.

 

Devemos entender os fertilizantes como sendo um material orgânico ou mineral que visa fornecer nutrientes às plantas. Eles aceleram ou estimulam o crescimento com o objetivo final de aumentar os rendimentos quantitativos ou qualitativos das culturas.

 

Os fertilizantes orgânicos e minerais são produtos que alimentam as plantas ou o solo fornecendo nutrientes assimiláveis ​​mais ou menos rapidamente. Os produtores rurais, para gerenciar melhor a qualidade e a quantidade de produção em suas fazendas, inevitavelmente usam fertilizantes.

 

Qual é a diferença entre fertilizante orgânico e fertilizante mineral? como eles são assimilados pelas plantas? Vamos tentar ver mais claramente...

 

O papel dos fertilizantes orgânicos e minerais é atender às necessidades nutricionais das plantas quando o solo não puder atender. Eles trazem em sua composição os diversos nutrientes que são essenciais para o desenvolvimento vegetal. O importante é que eles tragam exatamente os nutrientes correspondentes às necessidades da planta, nem muito e nem pouco.

 

Devemos entender que, independente da sua origem, mineral ou orgânico, para uma agricultura sustentável, é necessário repor os nutrientes que são exportados através da colheita. A reposição dos nutrientes ao solo irá permitir manter a fertilidade do solo e a manutenção ou acréscimo do rendimento da produção agrícola. Isso evitará a abertura de novas áreas para o aumento da produção, acarretando, por vezes, o desmatamento de florestas. Desta forma, podemos fazer uma correlação direta entre o uso do fertilizante e a preservação de florestas, ou seja, o respeito ao meio ambiente.

 

Fertilizante orgânico

 

A utilização de matérias-primas para geração de energia, produção animal e indústria alimentícia geram resíduos orgânicos muitas vezes descartados de forma inadequada, provocando riscos de contaminação no ambiente. O aproveitamento agronômico destes resíduos na geração de fertilizantes orgânicos fornece efeitos benéficos para o solo, para as culturas e oferecem um destino adequado para os resíduos.

 

Os fertilizantes orgânicos são derivados principalmente de resíduos naturais, vegetais ou animais. Eles liberam gradualmente nutrientes como nitrogênio, potássio ou fósforo, mas também micronutrientes essenciais para a boa saúde das plantas. Como a assimilação é mais lenta, não há risco de lixiviação.

 

Além de ser fonte nutricional, o fertilizante orgânico atua na estabilidade da estrutura do solo e na retenção de água e ar. Em resumo, o fertilizante orgânico funciona como um reservatório de nutrientes para a planta, melhora as características químicas, físicas e biológicas do solo, garantindo melhores colheitas.

 

O fertilizante orgânico tem a disponibilidade dos nutrientes mais lenta, dificultando controlar a liberação dos nutrientes para as plantas e a quantidade exata a ser aplicada. A degradação depende das matérias-primas que compõem o fertilizante e da atividade microbiana do solo.  Além disso, pode ter contaminação de agentes infecciosos, principalmente se o produto for oriundo de fezes animais, ou mesmo de resíduos industriais.

 

As transformações envolvem microrganismos do solo, o que implica uma temperatura suficiente no solo. Além disso, os fertilizantes orgânicos são muito menos concentrados em nutrientes do que os fertilizantes minerais, por isso é que os fertilizantes orgânicos devem ser usados ​​em maiores quantidades para ter os mesmos efeitos que os fertilizantes minerais.

 

Fertilizante Mineral

 

Os fertilizantes minerais são produtos de origem mineral natural provenientes de depósitos (potássio, fosfato ...) ou produzidos pela indústria química. Eles fornecem à planta minerais diretamente assimiláveis ​​e, portanto, têm uma ação rápida. Os chamados fertilizantes minerais "simples" fornecem apenas um elemento de cada vez, enquanto a maioria dos fertilizantes minerais é especialmente formulada para ser adaptada às necessidades mais globais e contém três componentes principais: nitrogênio (N), fósforo (P) e potássio (K).

 

Os fertilizantes minerais têm a concentração de nutrientes conhecida, o que permite quantificar com maior precisão a dose para atender as necessidades específicas das culturas agrícolas.

 

Os fertilizantes minerais podem ser divididos em duas categorias. Por um lado, fertilizantes minerais de ação rápida, que são imediatamente assimilados pela planta; a desvantagem é que deve ser dosado com cuidado, caso contrário, em caso de alta dosagem, o risco é grande de testemunhar um crescimento desordenado toxidez (faltou alguma coisa). Além disso, alguns nutrientes, não absorvidos pela planta, podem ser transportados para o lençol freático, causando poluição.

 

Viabilidade para a aplicação do fertilizante orgânico e mineral

 

O fertilizante orgânico deve ser usado em regiões próximas a sua produção. Quando consideramos propriedades distantes e de grandes dimensões, o uso do fertilizante orgânico se torna inviável economicamente. Isso se deve a elevada umidade e teor de matéria orgânica, tornando a concentração dos nutrientes baixa, quando comparada ao fertilizante mineral. Dessa forma, o volume a ser aplicado, para fornecer a quantidade suficiente para as plantas, é muito grande. Isso implica em altos custos com transporte, armazenamento e aplicação desse tipo de fertilizante.

 

Para exemplificar, vamos criar uma situação para adubar a cultura do milho 2ª safra em uma área de 1 hectare no estado do Mato Grosso do Sul (MS). A produção média estimada para o MS é de 85 sacas por hectare, ou seja, 5,1 toneladas por hectare.

 

Tabela 1. Absorção e exportação de macro e micronutrientes relativas à produtividade de 1000 kg ha-1 de grãos de milho. (Compilado por FANCELLI, 2008).

 

 

Utilizando os dados da extração de N, P e K (Tabela 1), para atingir produtividade média de 85 sacas por hectare (5,1 ton.ha-1), são necessários, aproximadamente, 92 kg de N,  16 kg de fósforo (P) e 82 kg de potássio (K) por hectare.  Para calcular a quantidade de fertilizantes necessária para adubar 1 ha de milho 2ª safra, devemos inicialmente colocar as necessidades da planta na mesma unidade dos fertilizantes, ou seja, 92 kg.ha-1 de N, 37 kg.ha-1 de P2O5 e 98 kg.ha-1 de K2O.

 

Sendo assim, como as plantas retiram os nutrientes do solo, o produtor precisa repor esses minerais, através dos fertilizantes, sejam eles orgânicos ou minerais, para que o solo não perca sua fertilidade e possa fornecer a nutrição adequada e equilibrada da planta visando garantir a próxima safra.

 

Para os fertilizantes minerais utilizaremos como fonte de N a ureia (45% de N), para o P usaremos o superfosfato triplo (41% de P2O5) e para o K a correção será feita com o uso do cloreto de potássio (60% de K2O). Como fertilizante orgânico vamos utilizar a cama de frango que possui em média 1% de N, 2,3% de P2O5 e 1,2% de K2O.

 

Para adubar 1 ha de milho de 2ª safra com o fertilizante mineral, a necessidade seria a seguinte:

 

Ureia: 200 kg

Superfosfato Triplo: 90 kg

Cloreto de Potássio: 165 kg

 

O peso total de fertilizante mineral para a adubação de 1 ha será de 455 kg. Com a adubação do fertilizante mineral estaremos fornecendo a adubação NPK balanceada, ou seja, de acordo com a necessidade da planta de milho.

 

A adubação com fertilizante orgânico usando a fonte cama de frango a quantidade para adubar 1 ha será de aproximadamente 9.200 kg. No entanto, o balanço de nutrientes na cama de frango não é adequado para a cultura do milho. A quantidade de 9.200 kg irá atender adequadamente o N e o K, mas irá fornecer quantidade muito superior de P. A necessidade de P2O5 para a cultura de milho é de 37 kg.ha-1,mas com o uso 9.200 kg.ha-1, estaremos aplicando  212 kg.ha-1 de P2O5, isto representa dose de 573% superior a real necessidade da cultura.

 

Em termos de deslocamento e aplicação na lavoura, supõe-se que o transporte seja realizado com um caminhão de capacidade de 30 m3. A densidade da cama de frango é de 550 kg m-3 (valores médios consultados com produtores da região de Naviraí – MS). O valor deste produto é de aproximadamente R$ 80,00 por m3.

 

No caso dos fertilizantes minerais, a densidade da ureia é de 1,33 g.cm-3, superfosfato triplo de 1,00 g.cm-3 e o KCl de 1,99 g.cm-3.

 

Simulando a adubação de uma propriedade com 100 hectares de milho, a quantidade de cama de frango necessária seria de 920 toneladas e de 45.500 kg por hectare de adubo mineral. Assim, seriam necessários 56 caminhões com cama de frango e de 1 caminhão com fertilizante mineral.

 

Para fornecer 92 kg de N, 37 kg de P2O5 e 98 kg de K2O para um hectare, com a cama de frango, seriam gastos em torno de R$ 1.336,00, somente com a compra do fertilizante, sem contabilizar custos com frete. Já com os fertilizantes minerais, ureia, MAP e KCl, respectivamente, seriam gastos R$ 355,60 com nitrogênio, R$ 81,78 com fósforo e R$ 241,13 com potássio, totalizando um custo de compra dos produtos de R$ 678,61 por hectare. Nesses cálculos não estão representados os cálculos de custo com transporte e aplicação dos produtos.

 

Importante entender que os fertilizantes minerais e orgânicos são fundamentais para a agricultura, mas devemos saber em que situação e circunstância cada um deve ser utilizado.

 

Sempre que a disponibilidade do fertilizante orgânico for passível de uso, ele deve ser aplicado, em função dos diversos benefícios que ele traz para o solo, além de estarmos promovendo a reciclagem dos nutrientes, evitando que os resíduos sejam deixados no ambiente sem uso adequado. A reciclagem devolve os nutrientes no solo, mas também contribuem para o aumento da matéria orgânica do solo, na capacidade de retenção de água da chuva e no controle de temperatura do solo. O uso dos fertilizantes minerais é uma forma de complementar a necessidade nutricional da planta, disponibilizando de forma mais rápida e balanceada os nutrientes que os vegetais necessitam. Assim, se estabelece o efeito complementar entre esses dois tipos de fertilizantes.

 

Assim, é possível perceber que os fertilizantes são importantes fontes de nutrientes para as plantas, que alimentam os animais e as pessoas. Os fertilizantes minerais são essenciais para a produção agrícola do Brasil, pois é necessário fornecer esses nutrientes de forma rápida e solúvel para as plantas, visando produzir alimento para o mercado interno e externo.

 

A iniciativa Nutrientes Para Vida (NPV), tem como missão destacar e informar a população a respeito da relevância de fertilizantes para o aumento da qualidade e segurança da produção alimentar, colaborando com melhores quantidades de nutrientes nos alimentos e consequentemente, com uma melhor nutrição e saúde humana.

        

Referências Bibliográficas

 

 BOSCO, João. Milho: produtor alcança 16 toneladas por hectare. 2017. Disponível em: <https://canalrural.uol.com.br/sites-e-especiais/milho-produtor-alcanca-toneladas-por-hectare-65501/>. Acesso em: 27 ago. 2019.

 

FAMASUL (Mato Grosso do Sul). Assessoria de Comunicação do Sistema Famasul. Lançamento da Colheita do Milho: Com produção prevista em 9,6 milhões de toneladas, Saito destaca desafios do setor produtivo em MS. Disponível em: <https://portal.sistemafamasul.com.br/noticias/lan%C3%A7amento-da-colheita-do-milho-com-produ%C3%A7%C3%A3o-prevista-em-96-milh%C3%B5es-de-toneladas-saito>. Acesso em: 27 ago. 2019.

 

MINISTÉRIO DA AGRICULTURA PECUÁRIA E ABASTECIMENTO (Brasil). Secretaria de Defesa AgropecuÁria - Sda. REGULAMENTAÇÃO DE INSUMOS AGRÍCOLAS: Brasília: Hideraldo José Coelho, 2005. Color. Disponível em: <http://www.cnpma.embrapa.br/eventos/2007/workshop/organica/download/insumos_fertilizantes.pdf>. Acesso em: 26 ago. 2019.

 

RAIJ, B. van et al. (Ed.). Recomendações de adubação e calagem para o Estado de São Paulo. 2.ed.  Campinas: Instituto Agronômico, 1996. (IAC. Boletim Técnico, 100).

 

 

* – Coordenador científico da Nutrientes para a Vida

** - Acadêmicas do Curso de Engenharia Agronômica, ESALQ/USP.

 

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