O lado B do presidente Jair Bolsonaro, na análise do psiquiatra Guido Palomba

Psiquiatra Forense, Membro Emérito e Ex-presidente da Academia de Medicina de São Paulo


Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil



KURT SCHNEIDER E JAIR MESSIAS


Em tempos críticos, como os da pandemia, tensões aumentam e caráteres se revelam. Por vezes, para entendê-los é preciso recorrer a Kurt Schneider, psiquiatra alemão, autor do livro Die Psychopathischen Persönlichkeiten, traduzido no Brasil para Personalidades Psicopáticas. A obra rendeu a ele reconhecimento mundial, chamam-no de o “pai dos psicopatas”.


Suas descrições tipológicas dão base ao diagnóstico, que se estabelece pelo desvio do comportamento social, resultado da ausência de sentimentos superiores de piedade, compaixão e altruísmo; como pela falta de valores éticos-morais e da incapacidade de reconhecer a própria culpa. São indivíduos que nunca apresentam remorso e arrependimento.


Schneider, ao descrever essas personalidades anormais, destaca características bem próprias. São carentes de compaixão, muitas vezes toscos, frios, anestesiados de senso moral, não medem palavras. Frente ao sofrimento alheio, morte de milhares de pessoas, soltam frases do tipo “eu não sou coveiro”, “chega de frescura, vai ficar chorando até quando”. Não há ressonância afetiva com a dor alheia.


Outro aspecto é vaidade exagerada. Acham-se acima de tudo e de todos. Por se sentirem superiores, não toleram contrariedades, reagindo com expressões “quem manda aqui sou eu”, “eu sou o chefe supremo”, “eu faço o que quero” e outras de conteúdo ególatra.


A terceira característica é a agressividade. São mal-educados, boquirrotos e provocadores. Kurt Schneider, em seu livro, menciona que “dificuldades muito particulares oferecem estes sujeitos sob circunstâncias militares. O desacato e a desobediência são cometidos quase sempre. A insubordinação, o mau comportamento leva-os à prisão, acabam expulsos ou abandonam” (Las personalidades psicopáticas. Madrid: Morata, 1974, p. 166).


Há ainda o fato de que são pouco inteligentes. Schneider chama-os de “antissociais que, por regra, associam-se aos oligofrênicos” (ibidem, p. 169). A inteligência limítrofe ou seletiva leva-os a praticar atos bizarros, por turrice e teimosia. Persistem voluntariosos, desde que seja em benefício próprio. Caso voltem atrás, não é pelo reconhecimento do erro, mas por estratégia momentânea. Em seguida, recidivam, às vezes de forma mais virulenta, por serem rancorosos e vingativos.


Por consequência lógica, apresentam alta periculosidade social. Nada os detêm, salvo a reprimenda enérgica, judicial e legal, única forma eficaz de pará-los.


Kurt Schneider usa o termo psicopatia para referir-se a esses anormais. Preferimos nominar condutopatia (conduta patológica, transtorno de comportamento) por ser menos genérico e, de certa forma, autoexplicativo.


Se ocupam cargos públicos, pouco importa o que fazem de certo ou de errado. Interessa-lhes o poder para escoar as condutopatias em louvor a si mesmos. Em postos de chefia, tornam-se tiranos, pois, egoístas, colocam a própria vontade e a autoridade acima das leis e da justiça.


Psiquiatras, como em todas as atividades, têm pontos concordantes e discordantes sob uma mesma doutrina. Porém, todos admitimos que psicopatas (condutopatas para nós) não têm cura, considerando que a origem do mal é orgânica, constitucional e irremovível. Não raro, sofreram pequenas lesões cerebrais em época intrauterina ou em tenra idade — fase em que o sistema nervoso está em acelerado desenvolvimento —, o que impacta a formação final do órgão.


Em clínica estabelece-se o diagnóstico quando, diante dos sinais e sintomas psíquicos, comportamentais e sociais, tem-se a história concreta de possível lesão do encéfalo, no estado fetal ou primeiros anos da vida.


Tudo isso para falar do segundo nome do presidente Jair, Messias, que sua mãe, Olinda Bonturi Bolsonaro, deu após gravidez complicada, atribuindo a Deus seu nascimento. Registre-se, por fim, que gravidezes complicadas são das principais causas de sofrimento cerebral e consequentes distúrbios de comportamento na adultícia, para Schneider e todos os que se dedicam à psiquiatria.


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Guido Arturo Palomba é referência aos tribunais e à imprensa, tendo balizado a mídia em casos como o de Suzane Louise von Richthofen, do ex-médico Farah Jorge Farah, em diversos parricídios, Champinha, Marcelo Pesseghini, João de de Deus, e outros sob judice.

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