Paulo Rzezinski e os 90 anos da Atheneu “Já formamos várias gerações de médicos, os melhores do Brasil”

September 3, 2018

Editora especializada em livros de ciências da saúde é reconhecida pela Câmara Brasileira do Livro em homenagem especial durante Bienal do Livro, em São Paulo

 

 

 Um ano antes da quebra da bolsa de Nova Iorque, nascia no cento do Rio de Janeiro a Editora Atheneu, fundada pelas mãos do catalão José Bernardes.

 

 Incontáveis fatos marcantes aconteceram desde 1928. A Segunda Guerra Mundial, o golpe de Getúlio Vargas, o homem chegou à lua, a bomba atômica, o nazismo, a guerra civil espanhola, a queda do muro de Berlim, a guerra fria, incontáveis crises econômicas no Brasil, eleições, assassinatos, impeachment. E assim se passaram 90 anos.

 

 Para celebrar as nove décadas de sucesso, a Atheneu foi homenageada durante a 25ª Bienal do Livro, em São Paulo, pela Câmara Brasileira do Livro, em cerimônia que contou com a presença de Paulo Rzezinski, seu diretor presidente.

 

 Médico formado pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), ele assumiu o comando da editora após o falecimento de seu pai, Jorge Simão Rzezinski, em 1984. Optou por abandonar o consultório para fazer da Atheneu a mais conceituada produtora de livros didáticos de ciência da saúde do País, com 1500 livros em catálogo, sendo 99% deles de autores nacionais. Aliás, uma empresa reconhecida por acadêmicos, universidades, personalidades da medicina e instituições de saúde.

 

 “Mas eu não saí da medicina. Coloquei a intelectualidade acima da própria Atheneu para fazer do Brasil um polo de conhecimento médico, gerar formação médica, trabalhos acadêmicos e de especialização. Assim atingimos o reconhecimento da editora e obtivemos sucesso também na questão financeira. Mas a parte editorial é o meu ofício. Até hoje leio ao menos parte de cada livro que sai. Preciso conhecer os meus autores”, comenta Paulo.

 

História de família

 

 Nos idos de 1928, a editora criada por Bernardes importava livros de países europeus, pois a indústria gráfica era incipiente no Brasil. Construir uma empresa sólida neste segmento era um sonho quase impossível, assim como parecia inimaginável sobreviver em um mercado que nem engatinhava ainda.

 

 “Meu avô foi um herói. Mesmo frente às dificuldades históricas e à cultura dominante que já rejeitava a leitura e que não valorizava a atividade intelectual, ele investiu no conhecimento, na vertente social”, ressalta.

 

 Um belo dia, o catalão decidiu mudar-se para a Argentina e deixou a Atheneu para Jorge Simão Rzezinski, o filho adotivo.

 

 “Naquela época, todos os livros de medicina eram importados e eu, idealista, sugeri ao meu pai, fazer um catálogo só com autores nacionais”, lembra. “Enfim deixei a medicina para trabalhar na medicina”.

 

 Homem de muitos predicados, Paulo garante que até hoje a vocação é a medicina.

 

 “Desde criança eu quis ser médico. Aos cinco, rabiscava um emaranhado de letras no papel e mostrava para minha mãe dizendo que era assinatura de médico. A medicina estava na minha própria natureza. Quando entrei na faculdade tive a sensação de deja vu. Como se tudo aquilo fizesse parte do meu ser”,

 

 Foi a paixão pela medicina que o fez persistir em transformar a Atheneu em referência para difusão do conhecimento de excelência entre os médicos e demais profissionais de saúde. Sua meta foi e é fazer do setor uma escada para inclusão social.

 

 “No meu percurso médico, me interessei demais pela literatura e pela filosofia. Poderia ter outras profissões nestes campos. Não foi à toa que por esses vieses literário e filosófico me formei em psiquiatria. Mais para frente cursei psicanálise, por sentir necessidade de conhecimentos em outras ciências, como antropologia, filosofia, linguagem. Quando eu cheguei na Atheneu, com esse viés literário, obviamente, eu não tive nenhum estranhamento”

 

 Em seus mais de 30 anos à frente da editora, Paulo enfrentou inúmeros desafios. Assim como o avô e o pai, acompanhou as mudanças aqui e lá fora. Aprendeu que não é possível desvincular a Atheneu do processo político-econômico.

 

 Para não se deixar esmorecer com as turbulências, aponta três virtudes que, pensa ele, todo homem deve ter: afetos múltiplos, ideal de filósofos e sonhos dos poetas.

 

  “É necessário perseverar sempre. Investir no processo sucessório, quando o velho dá lugar ao novo”.

 

 Foi dessa forma que Paulo fez da Atheneu um marco na história das ciências da saúde.

 

 

 

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