Escolas médicas de má qualidade: estelionato da pior espécie

January 20, 2017

 

A opção por cursar Medicina nasce do desejo genuíno de cuidar das pessoas,
bem como de zelar pelo bem-estar do outro; ao menos na maioria dos casos.
Porém, esse sonho não raramente vira pesadelo, quando se vence a etapa do
vestibular em diversas escolas médicas do Brasil.

Lamentavelmente a má qualidade da formação predomina em nosso País sob as
vistas grossas das autoridades responsáveis pelo ensino e a saúde, entre
outras. Assim, vemos jovens estudantes com potencial incrível tornarem-se
vítimas de um estelionato da pior espécie.

O péssimo nível de docentes, a estrutura inadequada das faculdades, a falta
de hospital-escola são flagrantes. Como em medicina praticamente não há
reprovação, em curto espaço de tempo colocamos na linha de frente do
atendimento milhares de profissionais com formação inadequada e
insuficiente.

Há quem diga que as lacunas de conhecimento podem ser corrigidas durante a
residência. Falácia. Guardadas as proporções, isso seria como preparar o
alicerce depois da casa construída.

Devido à mercantilização da formação e ao descompromisso social de maus
empresários do ensino e gestores, o Brasil já é o segundo país do mundo com
maior quantidade de cursos de Medicina. Os alunos concluem a graduação
despreparados, pois não se leva em conta questões de suma importância para
quem lidará com vidas humanas. Alguns possuem até certo nível de
escolaridade, mas não a base necessária de educação médica.
Educação médica tem como esteio a ética, a moral, a construção de valores e
a cidadania. Investe na construção do conhecimento e no aprendizado à beira
do leito. Médico precisa obrigatoriamente ter princípios e gostar de gente.
Mas isso não é a regra hoje em dia.

O Exame do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CREMESP),
já em sua 11ª edição, é uma evidência das distorções que aqui exponho. Em
2016, houve reprovação de 48% dos participantes. Ou seja, quase metade dos
recém-formados não conta com a base mínima para passar na prova, que é bem
rasa, aliás. Principalmente os que saem das instituições particulares, cujo
percentual de inaptos chega a 58%.

Recente levantamento da Sociedade de Medicina e Cirurgia de Campinas com
médicos e acadêmicos da região concluiu que 61% alegam que a faculdade não
contribuiu em nada, ou de forma pífia, para atuação frente ao mercado de
trabalho, em relação às operadoras de saúde. Além disso, a mesma declaração
é utilizada referente à gestão e administração do negócio (57%) e do direito
médico (30%). Ou seja, o profissional sai das escolas sem capacidade de
lidar com os problemas da sociedade e com a rotina do ambiente de trabalho.

Saúde é coisa séria. Escolas médicas sem estrutura necessária para munir o
especialista com conteúdo científico, humano e prático contribuem compromete
a segurança da população. Aliás, pensar somente no aspecto monetário desse.
processo é desconsiderar o fator humano. É, volto a frisar, estelionato.

**  Antonio Carlos Lopes, presidente da Sociedade Brasileira de Clínica
Médica

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