Portadores de doenças inflamatórias intestinais participam de evento na APM

August 2, 2016

 Cerca de 80 pacientes portadores de doenças inflamatórias intestinais participaram de encontro realizado pelo Departamento Científico de Gastroenterologia da Associação Paulista de Medicina, no último sábado (30), para ampliar o conhecimento acerca das enfermidades. Ao todo, nove palestrantes abordaram os aspectos gerais, epidemiológicos, clínicos e tratamentos das doenças.

 

Rosângela Maria Porto de Melo, presidente do Departamento Científico de Gastroenterologia da APM e coordenadora do evento, informou que o objetivo não foi apenas informar, mas incentivar a troca de experiência entre portadores, bem como estimular a adesão ao tratamento. “Como são doenças crônicas, o uso de remédios é por período indeterminado. Quando há uma estabilização, muitos jovens adultos, faixa etária em que predominam as doenças inflamatórias intestinais, não usam mais o medicamento. Voltam a fazer a posologia quando o quadro torna a se agravar. Por isso, esses encontros são fundamentais.”

 

Rosângela apresentou aulas sobre as características gerais das doenças e os aspectos clínicos na Retocolite Ulcerativa (RCU), inflamação e ulcerações no intestino grosso (cólon) e no reto, em sua camada mais superficial, a mucosa.

 

A pediatra Vanessa de Miranda explanou a respeito dos aspectos epidemiológicos das DII. Segundo ela, ainda não há uma percepção exata sobre as causas das doenças, embora estudos científicos genéticos recentes já apontam a interferência de alguns fatores. “Hoje, sabemos que é predominante na raça judaica, com uma prevalência maior na Europa. No Brasil, não temos elementos específicos fidedignos, só os grandes centros urbanos, como São Paulo e Porto Alegre, possuem maior quantidade de diagnósticos desses pacientes, com biopsias. Por isso, é importante conhecer os dados epidemiológicos tanto nacionais quanto internacionais para tentar compreender os fatores que predisponham o desenvolvimento dessas doenças”, alerta.

 

Os pacientes ainda tiveram explanações sobre as características clínicas da Doença de Crohn, sob orientação de Isabella Mazzucatto Rossi; indicações de Mesalazina, Azatioprina e Imunobiológicos, com Sandra Di Felice Boratto; tratamentos nas DII refratárias, com Marcelo Pedro; e monitoramento da evolução das DII, com Matthew Kazmirik.

 

Multidisciplinaridade

De acordo com a presidente do Departamento Científico de Gastroenterologia da APM, uma equipe multidisciplinar é essencial para acompanhar o tratamento do paciente. “O conhecimento não é sozinho. O médico precisa estar de mãos dadas com outras áreas, como o apoio de um dermatologista, oftalmologista e hepatologista. No meu dia a dia, tenho os profissionais da Nutrição, Psicologia e Enfermagem, em prol de um objetivo único, o bem-estar do paciente”, reforça.

 

Nesse contexto, a reeducação alimentar é fundamental. Rebeca Isaac, nutricionista especialista em alergias alimentares, afirma que a dieta rigorosa auxilia no tratamento e bem-estar da pessoa com essas doenças. “Eu costumo dizer para os pacientes de forma geral descascarem mais e desembalarem menos. Porém, para diferentes tipos de doenças inflamatórias intestinais, mesmo alguns alimentos naturais não são tolerados. Para portadores de Crohn, por exemplo, temos uma dieta não fermentativa que funciona. É cruel porque precisa evitar muitos alimentos, mas há uma melhora dos sintomas”, afirma.

 

No campo emocional, Mara Carneiro, psicóloga especialista em doença crônica, destacou que o acompanhamento terapêutico deve ser considerado como forma de aliviar a crise sintomática do portador. “Essa doença inflamatória intestinal dá um desconforto no cotidiano do paciente muito grande, porque traz urgências de evacuações e dores abdominais, muitas vezes súbitas e inesperadas. Então, a pessoa já é estressada e angustiada porque não sabe quando terá a crise. Tentamos dar algumas dicas, para que isso não pressione tanto o emocional e a pessoa aprenda a conviver com a doença”, explica.  Segundo a terapeuta, essas sugestões contribuem inclusive para a diminuição no número de ataques sintomáticos. “Porque o paciente fica mais relaxado e menos angustiado com os sintomas”, reforça.

 

Público

Mauren Carvalho Bet, engenheira química de 35 anos, começou a passar muito mal em 2004. Passou por diversos especialistas, mas sem conseguir a identificação do problema. Em 2005, conheceu a médica Rosângela Porto que, após exames, a diagnosticou com a Doença de Crohn. De lá para cá, há 11 anos em tratamento, ela falou das mudanças em sua vida em virtude da doença, mas que proporcionaram direções positivas.  

 

“Ter a doença me fez ter uma alimentação balanceada, pensar melhor em como quero levar a minha vida em termos de atividade física, fez-me relacionar bem com as pessoas, porque quando você está em um tratamento e conhece portadores que têm o mesmo problema, divide as dores e as preocupações, mas também a alegria de um sucesso na melhora”, pontuou Mauren, além de enfatizar o tratamento contínuo. “A adesão é muito importante. O médico faz a parte dele e temos de fazer a nossa, como não interromper a medicação”, completou.

 

Norimar do Carmo Salvadeo Santos, aposentada de 58 anos, descobriu há quase dois anos que também é portadora da Doença de Crohn. “Em julho de 2015, comecei a emagrecer muito. Só em um mês emagreci nove quilos. Atualmente, estou com 42”, disse. Hoje, ela busca informações para tentar amenizar os sintomas da doença. “Tem horas que desanima mesmo, por outro lado, encontros como esse são um aprendizado a mais porque você ouve especialistas e tem contato com outros pacientes. A troca de conhecimento é muito importante.”

 

 

Zenaide Wessler, vice-presidente da Associação de Doenças Inflamatórias Intestinais de Santa Catarina, veio direto do estado para expandir sua compreensão acerca das patologias. Cinco anos atrás, sua filha com então 23 anos foi diagnosticada com Doença de Crohn grave. Já teve inclusive um AVC em razão do quadro clínico. “Entrei na associação de DII para interagir e conhecer mais a doença, além de ajudar outras pessoas, porque hoje não gostaria que passassem pelo que passei. Foi difícil no começo para achar a doença, gastamos muito dinheiro para fazer todo o processo de exames”, explicou.

 

Com os vários exemplos e trocas de experiências no decorrer do encontro, para a organizadora do evento, ele atingiu a expectativa. “Foi uma atividade informativa da APM para a comunidade. Isso reforça ainda mais a importância da entidade, que possui atividades focadas não apenas para médicos ou acadêmicos de Medicina, mas para a sociedade como um todo”, completou.

 

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